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F I L G U E I R A S L I
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F I L G U E I R A S L I M A ALENCAR E A TERRA DE IRACEMA
Conferência Literária, com um estudo sobre a vida e a obra de José de Alencar, pronunciada em São Paulo, em 1939, no auditório do Jornal 'A Gazeta', em nome da intelectualidade cearense 4ª E D I Ç Ã O Editora e Gráfica Lourenço Filho Minha terra, como todas as terras de legenda, tem
um livro simbólico. Por tudo isso, pode-se dizer que o poeta de Iracema, com o seu estilo mágico, ensinou o Brasil a escrever... Rompendo com as normas da monótona e afetada estética do além-mar, Alencar abeberou-se das fontes nacionais, criando formas novas de expressão, imagens, palavras e símbolos, que, afinal, caracterizaram a fisionomia mental da Pátria. Não foi um iconoclasta da língua-mãe, destruindo pelo simples prazer de destruir. Nem tampouco foi um apedeuta que se utilizasse do chamado 'dialeto brasileiro' como 'surrão amplo, onde cabem à larga, como diz Rui Barbosa, todas as escórias da preguiça, da ignorância e do mau gosto'. Aliás, o autor da Réplica previne a citação do glorioso romancista cearense como justificativa para os desmazelos vernáculos dos escritores de fancaria. E o faz com o esplendor da sua pompa verbal: 'Depois então que se inventou, apadrinhado com o nome insigne de Alencar e outros menores, o dialeto brasileiro, todas as mazelas e corruptelas do idioma que os nossos pais nos herdaram cabem na indulgência plenária dessa forma de relaxação e do desprezo da gramática e do gosto'. Sobre o mesmo assunto aqui está o depoimento valioso de Machado de Assis: Á língua (refere-se à de Alencar), já numerosa, fez-se rica pelo tempo adiante. Censurado por deturpá-la, é certo que a estudava nos grandes mestres, mas persistiu em algumas formas e construções, a título de nacionalidade'. Eis como o próprio autor do Guarani trata da questão nas suas célebres cartas sobre a Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães: 'O velho estilo clássico destoa no meio dessas florestas seculares, dessas catadupas formidáveis, desses prodígios da natureza virgem que não podem sentir as musas gentis do Tejo e do Mondego.' E, com o desassombro de Ájax invectivando os deuses, exclama ainda no prefácio de Diva: 'Censurem, piquem ou calem-se, como lhes aprouver. Não alcançarão jamais que eu escreva neste meu Brasil coisa que pareça vinda em conserva da outra banda, como fruta que nos mandam em lata.' Foi isso o bastante para que, um ano inteiro, de 1871 a 1872, gramatiquelhos e criticastros arremetessem, furiosamente, contra o inexpugnável reduto alencarino. Não há notícia, em nossa história literária, de outra agressão mais violenta e mais torpe. Não serei eu quem vá recordar, neste fúlgido momento, a triste e inócua campanha do tamborileiro mercenário pretendeu vãmente destruir a figura homérica do romancista patrício. Sabeis, decerto, que me refiro ao homem que Alencar, num instante de cólera olímpica, classificou de 'gralha imunda' ao medíocre José Feliciano Castilho, cujo único valor literário consistia em ser o guia de um cego ilustre: o notável escritor português Castilho (Antônio...). Tudo porque Alencar, com intuição genial, notou e compreendeu no seu tempo, o fenômeno de assimilação das duas línguas, a aborígine e a lusa, que o sociólogo Gylberto Freyre estudaria, meio século depois, nas páginas da Casa Grande e Senzala. Ainda hoje na nossa toponímia geográfica, os termos autóctones sobrepujam de muito os lusitanos, porque o descobrimento e conquista dos sertões verificou-se na fase de pre-domínio do tupi como língua popular. Só mais tarde o idioma português conseguiu dominá-lo, mas o 'colonizador já estava impregnado de agreste influência indígena, já o seu português perdera o ranço ou a dureza do reinol; amolecera-se num português sem rr nem ss; infantilizara-se quase em fala de menino, sob a influência do ensino jesuítico, de colaboração com os columins.' Emancipado assim da vernaculidade lusitana, aspirando aquele perfume de liberdade que sentia nas flores de nossos campos, integrado no seu meio e na sua raça, Alencar bem merece o epíteto de 'príncipe da literatura propriamente chamada brasileira', com que o classifica Eugênio de Castro em livro recente e notável sobre a nossa geografia lingüística e a nossa cultura. Se a obra do gênio, como observa Goethe, não é a que assenta sobre o 'gosto', mas a que se firma no 'caráter' do povo, Alencar fez uma obra verdadeiramente genial, porque moldada na índole da sua gente, no caráter da sua raça. ALENCAR E O INDIANISMO O indianismo foi a arma que Alencar ampunhou para dirigir a grange e vitoriosa batalha pela independência mental da sua pátria, continuando gloriosamente a obra de seus heróicos ascendentes que deram o sangue pela nossa liberdade política e social. É José Veríssimo quem, insuspeitamente, o afirma: 'José de Alencar teve, mais que nenhum escritor brasileiro, a vontade firme, o propósito resoluto de fazer a literatura nacional.' O índio foi o material, o meio, o instrumento de que se serviu no início, porque Alencar não se encerrou no indianismo, como ainda observa o autor da História da Literatura Brasileira, pois explorou mais tarde outros motivos nacionais, com o fito de emancipar-nos intelectualmente da pátria de Camões. Nos seus selvagens não há, como os inimigos de sua glória quiseram ver, perfeita semelhança como os tipos exóticos de Chateaubriand. O romancista de Atala pos na boca de seus índios uma linguagem que era o reflexo de idéias somente possíveis de serem elaboradas pela maturidade espiritual de povos cultos. Também não colhe a pecha de imitador servil de Cooper, que era uma espécie de historiador literário, ao passo que Alencar é um escritor genial, pela frescura e garridice do estilo, pelo inédito e cósmico da inspiração. Apenas Alencar serviu-se do aborígine, como Cooper dos peles-vermelhas, O fenômeno social e político é o mesmo; aqui, a libertação intelectual de Portugal; na América do Norte, a separação espiritual da Inglaterra. Disse muito bem Araripe Júnior: 'O indianismo ou, por outra, o sentimento da legenda indígena, entranhado no coração criolou pela reação romântica, só teve um representante sério no Brasil, como só um teve também na América do Norte: - José de Alencar e Cooper.' Mas entre os dois espíritos é remoto o parentesco. As minúcias e certas vulgaridades do Último Moicano estão aquém da grandeza épica do Iracema e do Guarani. Não há nos romances indianistas de José de Alencar somente ficção. Tecla por demais batida, esta, ainda guarda soncridades inéditas. Os que vêem nos seus tipos indígenas mero produto da imaginação esquecem-se das pacientes pesquisas bibliográficas, das beneditinas sondagens coloniais a que se entregou, durante a sua vida acadêmica, o futuro cantor de Peri e Ceci, com o objetivo único de descobrir e recolher o material do verdadeiro romance brasileiro que já lhe ardia e palpitava no cérebro, num delírio genésico de expressão. 'Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais busca com sofreguidão, confessa ele, um tema para meu romance; ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma época.' Os velhos cronistas que viram a pátria na infância, soltando os primeiros vagidos e ensaiando os primeiros passos, forneceram-lhe assim o barro em que ele esculpiu figuras dignas do mármore e do bronze em que as fundiu a posteridade. A beleza sedutora e enleiante do corpo jovem de Iracema é a mesma daqueles 'corpos tam limpos, tam gordo e tam fremosos, que nem pode ser mais ser', descobertos em 1500 pelos olhos enfeitiçados de Pedro Vaz Caminha no esplendor tropical da Terra de Santa Cruz. Ainda o banho da virgem indiana, página de rara beleza, assenta na pura verdade histórica. Lery e Gabriel Soares referem nas suas velhas crônicas que um dos melhores divertimentos para os índios era o banho de rio. O pastor protestante, que tanto se empolgou com a carnação maravilhosa das nereidas selvagens, chegou a afirmar que as índias, nuas, na graça natural de suas formas, nada fizeram a dever às moças civilizadas, em sedução e beleza... A própria língua que Alencar põe na boca de seus índios, doce, lírica, melodiosa e rica de imagens, não é senão a que Anchieta, poeta e filólogo a um tempo, ouviu e aprendeu diretamente dos lábios dos selvagens: 'Sua língua é delicada, copiosa e elegante, tem muitas composições e sincopas, mais que os gregos.' Fernando Cardim também se refere a opulência e beleza da língua geral: ''É fácil, e elegante, e suave, e copiosa, a dificuldade dela está em Ter muitas composições.' Foi essa língua numerosa e sonora que Alencar traduziu num português 'sem o ranço reinol' de que fala Gylberto Freyre, mas bastante aproximado da língua que, segundo a observação pitoresca de Gabriel Gandavo, o amigo de Camões, 'carece de três letras, convém a saber não se acha nela nem F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei...' 'Mas nessa tradução, escreve Alencar, está a grande dificuldade; é preciso que a língua civilizada se molde quanto possa à singeleza primitiva da língua bárbara e não represente as imagens e pensamentos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca dos selvagens.' Por isso Alencar trabalhou tenazmente por desvendar os mistérios do idioma cujo conhecimento considerava o 'melhor critério para nacionalidade da literatura', pois não dá, 'não só o estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos de seu espírito e as menores particularidades da sua vida'. A força assombrosa do índio, que no Guarani simboliza a raça indígena, já foi levada a ridículo por críticos desavisados e incultos. Entretanto, Peri, que para muitos não passa de um herói mitológico, espécie de Hércules de tanga ou Ájax de arco e flexa, enquadra-se no depoimento dos antigos cronistas, a não ser naquilo em que o gênio plástico de Alencar completa ou engrandece a realidade. Diz Anchieta, falando dos índios: 'Nos campos e florestas andam e rompem como bichos', 'são tão destros que não lhes escapa passarinho que não matem, e a frechadas matam o peixe n'água'. E Lery, segundo o autor de Sobrados e Mocambos, salienta nos indígenas e na sua grande força física, abatendo a machado árvores enormes e transportando-as aos navios franceses sobre o dorso nu. Quando se refere ao caráter dos silvícolas, depõe o Apóstolo das Selvas na sua minuciosa Informação da Província do Brasil: 'Não são demandões, mas benfazejos e caritativos, todos os que lhes entram em casa comem com eles sem lhes dizer nada.' Pergunto-vos agora: existiu ou não a cabana de Araquém - símbolo brasileiro de hospitalidade? No Ceará, pelo menos, quando se quer significar a um visitante carinho e apreço especiais, são as palavras amigas do velho pajé que logo borbulham e cantam em nossos lábios: - 'Bem-vindo seja o estrangeiro a cabana do Araquém.' Para os conterrâneos de Alencar as figuras que ele criou são tão vivas e reais como as que aparecem nos versos belo e fortes deste soneto do grande poeta cearense Júlio Maciel sobre o idílio do 'guerreiro branco' com a 'virgem dos lábios de mel': Rebelde e forte, aqui, outrora se implantava. A taba indiana - aqui, onde a lama lua cheia, Pródiga, a derramar em cachões a luz flava, - Agora a estes casais a fachada clareia. Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia! Praia! O tropel da tribo em correria brava Quanta vez não sentiste a sacudir-se a areia! E Embora tu, passado, a lenda antiga escondas, Eu sei que o amor também floriu: no treno Da aragem, no marulho eloqüente das ondas. Parece-me inda escuto, em meio à noite clara, O selvagem rumor dos beijos de Moreno E as falas de paixão da meiga tabajara! ALENCAR E MACHADO DE ASSIS Agora que pelo Brasil todo, se forma um concerto de merecidos aplausos à personalidade de Machado de Assis, é bom que não esquecemos o quando deve o romancista de D. Casmurro ao romancista do Guarani. Em mais de uma página, em trechos de crítica, num discurso célebre, em várias crônicas e reminiscências, Machado de Assis põe em relevo a poderosa influência que Alencar exerceu sobre seu espírito e a sua formação literária, chegando mesmo a chamá-lo de 'chefe dos chefes'. E quem compulsar com vagar e com amor, porque sem amor não há compreensão, a obra alencarina, lá descobrirá, por sem dúvida, a nascente do veio cristalino da estética machadiana. O mesmo ceticismo do psicólogo de Quincas Borba melancolizou e enoiteceu os últimos livros do prozador cearense. A técnica literária dos constantes, tão características de Machado, como acentuaram os seus inúmeros críticos, já fora apontada como peculiar ao dramaturgo de Verso e Reverso pelo senso crítico de Araripe Júnior, em livro que o próprio Machado chamou de 'estudo imparcial e completo' sobre o escultor intelectual de Peri e Ceci. Profundamente ligado às fontes literárias da Europa, com um respeito quase supersticioso pela gramática lusitana, mas dotado de altíssimos dons de análise, Machado terminou com mão de mestre o romance psicólogo que Alencar, no seu assombro polimorfismo, tentara realizar também em Diva, Lucíola e Senhora. Notável, talvez único, pela revelação de mundos interiores, paisagens introspectivas, pelo cômico amargo de seu humor, Machado de Assis, entretanto, não podia ser jamais um verdadeiro discípulo de Alencar. Faltou-lhe o ímpeto criador, a força imaginativa, a música verbal, a receptividade patriótica do soberbo poeta de Iracema. Há provas que, iniludivelmente, evidenciam o excepcional conceito em que o artista da Mosca Azul tinha o paisagista miguelangelesco das cheias do paquequer. Lembro-vos, de passagem, que o nome solar do prosador cearense, enquanto vivo foi Machado de Assis, que o escolhera para seu patrono, fulgiu como um brasão de ouro no pórtico da cadeira presidencial da Academia Brasileira de Letras. Ainda agora, num pequeno volume de páginas esquecidas do psicólogo de D. Casmurro, o ilustre crítico brasileiro contemporâneo Eloy Pontes, estudando as influências literárias sofridas por Machado de Assis, escreve o seguinte: 'O romancista de Iracema foi quem mais vivas influências teve no seu destino literário, sem dúvida alguma. Os traços dessa influência ficaram indeléveis. Machado de Assis recordava-os sempre com desvanecimento.' No admirável estudo sobre o teatro de Alencar, Machado com aquela sua finura crítica, analisa, uma por uma, as peças do dramaturgo e comediógrafo de Asas de um Anjo, Verso e Reverso, Demônio Familiar e Mãe - peça que ele classifica de 'obra verdadeiramente dramática, profundamente humana, bem concebida, bem executada, bem concluída', afirmando, finalmente, que 'estava acostumado a ver no Sr. José de Alencar o chefe da nossa literatura dramática'. E quando, por influência direta do Imperador, se fez em torno do criador de Ubirajara aquele vácuo que tanto amargurou os seus últimos dias nesse planeta, foi Machado quem numa carta pública, em resposta a carta que Alencar lhe escrevera apresentando-lhe Castro Alves, disse que ele tinha 'contra a conspiração da indiferença um aliado invencível: a conspiração da posteridade'. O estro machadiano de As Americanas vibra no mesmo diapasão romântico e patriótico do indianismo alencarino, ainda que sem a força expressional do poeta dos Filhos de Tupã. Graça Aranha, que era um machadiano impertérrito, escreveu na Estética da Vida: 'José de Alencar teve o privilegio de ser o primeiro escritor de síntese que surgiu no Brasil. Machado de Assis foi um imenso escritor de análise: examinou os fragmentos do mundo moral brasileiro, mas em nenhum de seus livros teve a fôrna de reunir estes fragmentos e dar a síntese da civilização brasileira; e por isso faltou a Machado de Assis esse relâmpago de gênio que teve Alencar, quando no Guarani fixou o ciclo da formação nacional do Brasil, o encontro do português e do índio no mundo tropical, a fusão das duas raças de que nasceu a alma brasileira.' O romance de Machado de Assis, à parte o sentido universalista que alguns de seus críticos lhe apontaram, ficou restrito à vida carioca, de que ele foi u interprete amoroso, irônico e sutil. Alencar enveredou por caminho diverso, realizando uma obra orgânica de nacionalismo. O que os gloriosos paulistas Alexandre de Gusmão e José Bonifácio, no terreno diplomático e político, - o primeiro como inspirador e autor do Tratado de Tordesilhas, o segundo como Patriarca da independência - fizeram pela integridade territorial e emancipação política do Brasil, fê-lo José de Alencar no setor intelectual, criando e fundando a genuína literatura brasileira. Um rápido olhar sobre a sua obra poliédrica prova-nos que ele não se imitou a encarar aspectos da sociedade ou da natureza, mas a pátria inteira, tornando a sua obra literária, no justíssimo dizer de Gilberto Amado, 'o retrato integral do Brasil.' Estudou a vida aventureira dos vaqueiros do norte no Sertanejo e pintou os dramas singulares dos pampas do sul no Gaúcho, a vida colonial nas Minas de Prata, Guerra dos Mascates e Garatuja; a sociedade do tempo em Diva, Pata da Gazela, Lucíola, e Senhora; por fim se escreveu o Iracema - hino ao Ceará, produziu o Guarani - hino ao Brasil. Machado mesmo o reconheceu ao tratar desse ponto nas Páginas Recolhidas: 'O espírito de Alencar percorreu as diversas partes da nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-os em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos, a unidade emocional da sua obra.' Daí Ter podido Agripino Grieco dizer na Evolução da Prosa Brasileira que José de Alencar foi 'uma espécie de conterrâneo de todos nós.'... O ESTILO DE ALENCAR Sabendo como Remy de Gourmont que não há nada mais perecível do que o estilo que não repousa sobre a solidez de um pensamento forte - Alencar jamais escreveu no vácuo, pelo só efeito da frase campanha e vazia. Caráter sem eiva, ele não seria nuca o 'dizedor das frases', de Pascal. O seu estilo, dentro da literatura brasileira, é como o canto do uirapuru das selvas amazônicas. Escutá-lo é fitar, para sempre, extasiado à ouvi-lo, porque as suas harmonias tem qualquer coisa de extra-humano, de quase divino. Disseram bem João Ribeiro e Sílvio Romero que Alencar não precisaria assinar o que escrevesse. Em verdade, a nota pessoalíssima de seu estilo, onde quer que vibrasse, seria, facilmente, identificada, tanta é a fascinação que desprende e irradia. Alencar, ao reverso do que supõem críticos apressados e apriorísticos, cuidou sempre de sua forma de expressão, da sua linguagem, de seu estilo, sem a tortura genesíaca de Flaubert, mas com a paciência amorosa de Renam. Lêde o que ele escreveu no post-scriptum de Iracema: 'Minhas opniões em matéria de gramática tem-me válido a reputação de inovador, quando não a pecha de escritor incorreto e descuidado. Entretanto poucos darão mais, senão tanta importância à forma do que eu: pois entendo que o estilo é também uma arte plástica, porventura muito superior a qualquer das outras destinadas à revelação do belo.' O estilista das Minas de Prata tornou-se, realmente, dono de todos os segredos dessa arte esquiva que, à semelhança das abelhas, mata as que a dominam e fecunda... Ninguém conseguiu, no Brasil, antes dele e depois dele, aprender melhor o valor plástico das palavras, o sentido escultural do verbo. Como aquele 'estatuário de colossos' de Castro Alves, José de Alencar modelava quadros ciclópicos com essa luta entre o Amazonas e o Oceano, que tem a grandiosidade de uma página de Homero. 'Ele viu o grande rio combater com o mar, no empo da pororoca. Os dois chefes tocam a inúbia antes da peleja, para chamar seus guerreiros. Vem de um lado as águas do mar, são os guerreiros azuis, com penachos de araruna; vem do outro as águas do rio, são guerreiros vermelhos, com penachos de nambu. Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas. Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos ombros, solta o grito do triunfo.' Mas o estilo alencarino assemelha-se ao Proteu mitológico, pela multiplicidade dos efeitos, pela variedade dos tons, pela riqueza das tintas, pela exuberância dos ritmos. A mesma cena que ele fixou nas páginas do Ubirajara, com sobriedade de palavras, para dar maior relevo às figuras, segundo o processo homérico, ei-la em majestosos versos brancos, nesta invocação ao Amazonas, do seu belo poema inacabado Os Filhos de Tupã: Salve, Amazonas! Rei dos reis das águas Pela terra que vergas com seu peso, Dorme, ó gênio das águas! Quando ao sonho Nos Versos que acabastes de ouvir ressaltam outras qualidades de
Alencar como dominador do verbo. O prosador transmuda-se em poeta,
manejando o verso branco do mesmo modo que os seus guerreiros selvagens
manejam o arco e a flecha. Rio, 20 de XI de 1939
Um longo e forte abraço do amigo e admirador Clóvis Beviláqua
Verdadeiramente comovida, entusiasmada e grata, ouvi religiosamente a sua sincera, bela e eloqüente oração sobre o meu adorado Pai. Vibrei de alegria e, praza aos céus, que todos os brasileiros que tiveram a ventura de ouvi-lo, tenham compreendido quem foi José de Alencar, e que Ceará possui filho como o Dr. Filgueiras Lima, digníssimo representante da terra de Iracema. Com um abraço para o Sr. E para a sua querida esposa, o muito obrigado de
8-11-939 |