BERÇO E TÚMULO
Vinha de longe aquela voz de criança.
Vinha, das águas ou do céu? Ninguém
havia ali naquela solidão
do rio aberto, sob os astros tristes.
Mas a voz inocente enchia a noite
de uma ternura amargurada e doce.
Era um grito de pássaro ainda implume
pedindo o apoio e o amor da asa materna...
Passam troncos bolando na corrente
como corpos, cadáveres andejos,
dentro da noite, fantasmais e trágicos.
E um berço desce como um ninho, à toa,
por entre os troncos, nas barrentas águas
que vão correndo para o mar e a morte.